[Revista Época] O MESTRE QUE MUDA VIDAS

01. novembro 2016 Uncategorized 0
[Revista Época] O MESTRE QUE MUDA VIDAS

Confira abaixo trechos retirados da reportagem especial da Revista Época desta semana.

UM MESTRE DE 176 MEDALHAS

Anna Julya do Espírito Santo da Silva, de 15 anos, nunca foi uma aluna exemplar. Seu problema não era a compreensão dos conteúdos, mas a preguiça em concluir as tarefas de classe e de casa. A displicência primeiramente a afastou das notas mais altas. Depois, passou a comprometer o aprendizado. “Fui acumulando defasagem em matemática”, diz Anna Julya. “Depois de um tempo, já não conseguia acompanhar a turma.” Em 2013, ela foi reprovada no 7º ano.

Com esse histórico, Anna Julya destoa do grupo de crianças com ótimo desempenho acadêmico que a Escola Municipal Francis Hime reuniu, a pedido de ÉPOCA. Para sair na foto dos alunos que são medalhistas da Olimpíada de Matemática do Estado do Rio de Janeiro (Omerj), ela arrumou de improviso uma medalha de prata – tomou emprestada uma das nove de seu amigo Victor Marinho, de 13 anos. Mas não se trata de fraude. Ela havia esquecido a medalha em casa e aquele era um dia de tirar retrato. Pouco mais de seis meses depois de ter sido reprovada por causa da matemática, Anna Julya se tornou, de fato, uma atleta dos números: competiu e ficou entre os melhores estudantes de matemática do Rio de Janeiro.

A mudança brusca na trajetória de Anna Julya com os números se deu depois de alguns meses de aula com Luiz Felipe Lins, de 44 anos, professor de matemática da Francis Hime, uma escola pública localizada na Estrada do Pau da Fome, em Taquara, um bairro de classe média baixa da Zona Oeste do Rio de Janeiro. Desde 2005, quando foi criada a Obmep (Olimpíada Brasileira de Matemática do Ensino Público), Anna Julya, Victor e outras dezenas de alunos de Luiz Felipe conquistaram 176 medalhas e centenas de menções honrosas nas quatro versões de olimpíadas de números que existem – duas estaduais e duas nacionais.

Esses números são, por si só, impressionantes. São ainda mais admiráveis porque Luiz Felipe não treina uma garotada pré-selecionada – como fazem alguns cursinhos de ponta, para alardear percentagens admiráveis de sucesso de seus alunos no vestibular. Luiz Felipe dá aula para estudantes da periferia – entre eles, vários moradores de favela – que chegam com todo tipo de dificuldade de aprendizado ao ensino fundamental II, a etapa que vai do 6º ano ao 9º ano. Uma vez em sua classe, vários começam a se sobressair – quase como por milagre. O desempenho de Luiz Felipe se torna mais reluzente quando se conhecem os indicadores do desempenho alarmante dos estudantes brasileiros em matemática: apenas 16% das crianças que deixam o 9º ano têm o nível de conhecimento adequado na área. Ao final do ensino médio, a taxa cai para meros 9%.

Como Luiz Felipe consegue driblar as estatísticas nacionais e colocar seus alunos entre os melhores do estado e do país em matemática? Não há uma resposta única para essa questão. Pelo contrário: a resposta pode variar tanto quanto o número de alunos. O segredo do sucesso de Luiz Felipe, a despeito das salas lotadas e da diferença de aprendizado dos estudantes, é ensinar cada criança da forma como ela é capaz de aprender.

TODO PODER AO PROFESSOR

Esqueça os computadores e tablets, os laboratórios bem equipados, o nível socioeconômico do aluno, mais horas de aula e métodos inovadores de ensino. Nada, absolutamente nada, é mais importante para o desenvolvimento de uma criança – e consequentemente  na vida profissional de um adulto – do que ter um bom professor. Ninguém nunca questionou o valor dos professores. A novidade é que a maior pesquisa já feita em Educação comprovou que ter um bom professor não é só importante para a educação do aluno, como esse é o fator de maior influência no aprendizado, em qualquer lugar do mundo, independentemente do método de ensino ou da idade da criança.

A cada ano de aula com um bom professor, as crianças aprendem o equivalente a um ano e meio a mais de estudo na comparação com alunos que têm professores apenas medianos. Os estudantes de um professor ruim, por sua vez, aprendem metade ou menos do que deveriam em um ano. O impacto de bons professores ecoa por toda a vida adulta dos estudantes. Eles têm mais chances de cursas uma faculdade, de ter um bom emprego, de levar uma vida mais saudável e de contar com rendimentos maiores ao longo da vida.

Diminuir o número de alunos por sala de aula custa cinco vezes mais do que formar e manter um bom professor e dá quatro vezes menos retorno. Reforçar o ensino com aulas complementares fora do horário-padrão exige o dobro do investimento e é cinco vezes menos eficiente.

Um mito de que bons professores seriam aqueles que nascem com a vocação para o magistério é desfeito.  Saber dar aula é uma habilidade que deve ser desenvolvida, com treinamento, planejamento e acompanhamento. Assim como é possível formar superatletas com o preparo adequado, também é possível formar excelentes professores. Essas conclusões podem ser valiosas na definição de políticas públicas para países de grande desigualdade social como o Brasil.

Nas nações que mais sabem educar suas crianças, o processo de valorização da profissão do professor começa no perfil do aluno atraído para a área. Ser professor na Finlândia ou em Cingapura é tão difícil quanto se formar como médico. O vestibular para os cursos de formação de professores seleciona os melhores alunos do país. A carreira do professor seduz tanto pelo que proporciona financeiramente quanto pelo prestígio que confere a quem chega lá. A má notícia é quer a estrutura de formação de professores no Brasil percorre caminhos literalmente opostos aos das melhores práticas internacionais.

A falta de cultura de avaliação de desempenhos dos professores está no cerne dos problemas que temos no Brasil com os cursos de formação destinados aos 500 mil professores na ativa na rede pública. Não há medição de gastos do impacto com treinamentos de aprendizado do aluno.

Para que o Brasil consiga avançar no roteiro que leva um país a ter excelentes professores e, consequentemente, boa educação, precisamos virar pelo avesso a forma como formamos e valorizamos nossos professores. Um primeiro passo poderia ser dado imediatamente no Brasil. Criar instrumentos para que os altos investimentos (já existentes) em formação de professores resultem em profissionais mais bem preparados e valorizar aqueles cujos os alunos aprendem mais pode ser um começo para uma revolução. O maior problema da educação brasileira está na frente do quadro-negro. E a solução também.

 

Créditos: Flávia Yuri Oshima (Revista Época)


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