Como resolver o fracasso educacional e deixar o status de país medíocre?

21. março 2016 Artigos 0
Como resolver o fracasso educacional e deixar o status de país medíocre?

O Brasil fracassa na educação. Avaliações oficiais comprovam que menos de 2 em cada 10 jovens com 17 anos de idade sabe o que deveria e mais da metade das crianças de 8 anos não consegue responder uma conta simples. São dezenas de milhões de crianças e jovens com o futuro comprometido por conta de nossa inércia em lidar com o problema, que provoca consequências em áreas como a saúde, a segurança, a política e a economia.

Quantas crianças e jovens poderiam ser grandes escritores, músicos, professores ou cientistas se tivessem educação de qualidade?

Este fracasso tem várias causas. A capacidade cognitiva e intelectual de uma pessoa, o quanto ela consegue aprender em sua vida, depende de uma miríade de fatores, internos e externos às escolas e sistemas educacionais. Primeiro, vamos avaliar a escola, levando em consideração uma escola mediana. Em geral, as instalações da escola, sua infraestrutura, o currículo, os materiais, as rotinas e as didáticas estão ultrapassados. O espaço não é inspirador, acolhedor ou desafiador. Os alunos sentem que estão em lugares hostis, que não há relevância no conteúdo apresentado e que não fazem parte de uma comunidade. Os métodos de ensino estão distantes da forma como aprendemos hoje. Avanços tecnológicos que vêm impactando nossos hábitos e trabalhos não são utilizados. O acesso à internet é praticamente inexistente. Novas descobertas das neurociências não influenciam as ações pedagógicas. Habilidades e competências essenciais para a vida são alijadas dos planejamentos de aulas.

Em segundo lugar, devemos avaliar quão bem os professores, principais atores da escola, estão exercendo seu papel. Boa parte não consegue fazer um bom trabalho e culpá-los não é justo ou útil. Não são vilões que criam rotinas estressantes e planejam ser incompetentes. Os professores, em geral, são pessoas idealistas, que se sentem desestimulados e incapazes frente ao sistema atual. A carreira é pouco atraente, as formações (iniciais e continuadas) privilegiam muito pouco a prática e são ineficazes. Os materiais didáticos têm baixa qualidade e não há recursos suficientes.

Macrotendências mundiais na didática, como aprendizagem baseada em projetos, personalização e gamificação são pouco conhecidas e falta infra para sua utilização.

Além disso, sabemos que a comunidade escolar é constituída por outros atores e que a aprendizagem pode acontecer a qualquer hora, em qualquer lugar. As diferenças na participação de familiares são perceptíveis antes mesmo da pré-escola, já que os anos iniciais são decisivos para o desenvolvimento das conexões cerebrais. O número de palavras conhecidas por uma criança quando ela inicia sua vida escolar tem grande influência sobre seu sucesso acadêmico já que quanto mais sabemos, mais facilidade temos para aprender. No contexto brasileiro, entretanto, há pouca integração e pouca qualidade nas relações entre escola, família e bairro. O status sócio-econômico da família, a curta vida acadêmica dos pais e outras características sociais como a violência urbana também contribuem para a baixa aprendizagem.
Finalmente, reflitamos sobre o papel dos gestores nas escolas e governos. A seleção, a formação e as ferramentas usadas pelos diretores das escolas são, com frequência, inadequadas. Os secretários de educação raramente têm conhecimento suficiente sobre educação ou gestão. As políticas educacionais sofrem com problemas de implementação e falta de articulação com outras pastas como cultura, saúde e assistência social. A burocracia e as leis da gestão pública (incluindo a 8666, das licitações) inibem a inovação.

A descontinuidade política (muitas vezes por razões egóicas) tem impacto negativo nas equipes, culturas e processos.

O cenário é complexo e requer muitos ajustes para que tenhamos profissionais e alunos comprometidos e responsáveis. Temos visto alguns avanços de municípios e estados que têm conseguido resultados relevantes. Mas se realmente queremos mudar nossa história, urge reconhecer o tamanho do problema, priorizando, de fato, a educação, enfrentando desafios em várias frentes e fazendo mudanças nas escolas, na formação dos professores e na gestão. Reconheçamos que essa é a raiz de nossas crises e não deixaremos de ser um país medíocre antes de superá-la.

 

 

Artigo originalmente publicado no perfil do Rafael Parente no jornal Correio Braziliense em Fevereiro de 2016


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